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DANÇA X EDUCAÇÃO FÍSICA
DANÇA ARTE NÃO É ESPORTE E BAILARINO NÃO É ATLETA

 

Autor
Rosângela Déa de Melo

Fotos

Bruna

 
 
DANÇA X EDUCAÇÃO FÍSICA

O objetivo dessa matéria é fazer uma analise da Dança e da Educação Física no Brasil, estabelecer as especificidades, limites e fronteiras de cada área enquanto campo do conhecimento e atuação profissional distinguindo a Dança Escolar da Dança Artística.

Atualmente a dança se dá em muitos espaços, como clubes, academias, escolas particulares, escolas públicas e escolas especializadas de dança.
A formação (superior) específica na área de dança ocorre na graduação de Dança, que possui tanto a opção do bacharelado quanto da licenciatura.
No Brasil há cursos de graduação de Dança tanto públicas, como é o caso da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas), como em faculdades privadas como é o caso da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e das Faculdades Anhembi Morumbi (também na capital paulista). Os cursos de pós-graduação em Dança no Brasil ainda são escassos. Muitas vezes ela aparece como linha de pesquisa dentro das artes ou das artes cênicas.
Além da Dança ser estudada em sua própria graduação, ela é compartilhada pela Educação Física e por outras áreas do conhecimento como é o caso das Artes Cênicas, Educação Artística, Comunicação Social e Artes Plásticas.
O que significa que além da Dança, os licenciados em Educação Física, Artes Cênicas e Artes Plásticas também são capacitados para ministrar aulas de dança no ambiente escolar (EHRENBERG, 2003).

Muito se discute no meio da Dança a validade do seu estudo nos currículos de formação de professores de Educação Física. Na minha concepção a prática só se configura quando contempla a parte teórica, e esta só se completa quando existe o conhecimento da parte prática.
Não adianta ter a Prática sem a Teoria e a Teoria sem a Prática, ambas se completam.

Sou professora-coordenadora e Coreógrafa do Studio de Ginástica e Dança Santa Catarina, fiz Faculdade de Educação Física no CEFID-UDESC, porque em Florianópolis não existia, e não existe “ainda” uma Faculdade de Dança. Na minha visão é inadmissível que Santa Catarina, sendo o único estado do “mundo” a ter uma filial da Escola Coreográfica de Moscou, não tenha uma Faculdade de Dança.
A Faculdade de Educação Física me forneceu a base pedagógica. O conhecimento Universitário sempre fará diferença na minha visão, porque somente a prática de um determinado Estilo de Dança são insuficientes para ministrar aulas, é necessário embasamento teórico para a formação de um bom profissional.
Mas o conhecimento Técnico?

O fato é que a Faculdade de Educação Física não qualifica ou forma um Professor de Dança-Arte porque o professor de Educação Física não possui qualificação na parte Artística.

DANÇA ARTE NÃO É ESPORTE E BAILARINO NÃO É ATLETA

No âmbito escolar a preparação do profissional da Dança na Faculdade de Educação Física precisa ser fortemente ampliado, discutido e avaliado no campo de atuação dos profissionais que a ela se dedicam. A prática da dança nas aulas de Educação Física ainda se realiza de forma muito restrita. Isto se dá ao despreparo na formação dos profissionais. As faculdades de Educação Física não estão capacitando os profissionais para atuar como dança-educação.
As Universidades de Educação Física como formadoras, devem conter em seus currículos, estudos teórico-práticos, didático-pedagógicos da dança para suprir as necessidades destes profissionais interessados em trabalhar com ela. Este é sem dúvida um dos pontos mais críticos, quando muitos afirmam que:
"O ensino universitário da Educação Física na área da Dança não vem sendo capaz de suprir as demandas do mercado, deixando em aberto as suas responsabilidades”.
Tanto o professor de Educação Física como os Pedagogos vêm trabalhando com a dança sem ter uma contextualização para isto.
O fato é, que compreender o corpo através da dança como possibilidade de estabelecer múltiplas relações com outras áreas do conhecimento analisando, discutindo, refletindo e contextualizando seu papel na contemporaneidade, passa a ser condição para quem trabalha com seres humanos e, principalmente com a educação, em que a multiplicidade de corpos estão presentes nas salas de aula.
Na minha visão a Educação Física utiliza pouquíssimos elementos de ordem teórica-metodologica que ajudem o acadêmico a compreender de forma mais especifica o ensinar-aprender da Dança-Escolar.
Não certos do paradigma teórico a seguir, pelo fato de estarmos engajados numa produção de conhecimentos muito diversificados, mas convém que adotemos uma proposta que considere o educando como um todo que se movimenta, pensa, age e sente, explore suas possibilidades naturais na prática das atividades, possibilite a liberação das emoções, o prazer da participação, favoreça ao educando condições para o novo e que através de experiências ele possa perceber o que seu corpo é capaz de fazer e desenvolver todas as suas potencialidades.
É fundamental uma ação pedagógica na qual possamos incluir o desenvolvimento do organismo enquanto complexidade bio-físico-social, assegurando um bem-estar físico e mental, procurando suprir as eventuais deficiências que o educando possa apresentar em sua constituição nativa ou no decorrer de seu desenvolvimento, criando condições para o desabrochar de processos corporais mais complexos no que se refere a fatos, conceitos, procedimentos, valores e atitudes.
Estas discussões apontam para o compromisso que se deve ter enquanto educador, assumindo uma atitude consciente na busca de uma prática pedagógica mais coerente com a realidade, em que a dança leva o indivíduo a desenvolver sua capacidade criativa numa descoberta pessoal de suas habilidades.
Se a dança está presente de alguma forma na Educação Física, é necessário refletir sobre a função, o papel da dança na Educação Física. É necessário que haja uma reflexão sobre a quais propósitos, finalidades e objetivos deve a dança servir na Educação Física.

Quais os limites do professor de Educação Física, ou seja, até onde este professor pode e deve ir ao ensinar a dança na escola?

O professor de Educação Física na área da Dança Escolar deve atuar em três diferentes âmbitos:
Vivência, prática e treino (PÉREZ GALLARDO).
O âmbito da vivência diz respeito à atuação do profissional de Educação Física na escola, onde o aluno toma contato com a cultura corporal de movimento, sem preocupar-se com a aquisição e habilidade técnica, pois esta cabe ao âmbito do treino, atuação do profissional fora do ambiente escolar, como clubes e academias. E a dança quando ensinada na escola deve estar inserida no âmbito da vivência.
Essa idéia pode ficar mais evidente quando se pensa no ensino esportivo na escola. O objetivo da Educação Física escolar não é formar, preparar o atleta.
Aquele que quer tornar-se jogador de basquete, por exemplo, deve procurar esta formação, este respaldo, fora da escola. Assim como aquele que quer tornar-se bailarino (a) deve procurar uma formação adequada para tal, que não a escola.
O objetivo da escola não é preparar profissionais específicos para determinada área, mas oferecer um leque de possibilidades de vivências corporais, o conhecimento da cultura corporal de movimento, assim como aprender a lidar "com o corpo e o movimento integrado na totalidade do ser humano" (GONÇALVES, 1994, p. 158).

Os profissionais formados em Educação Física como em Artes podem até ensinar dança na escola, mas "faz-se necessário realmente delimitar o âmbito de atuação e deixar claro o aprofundamento dado ao objeto de estudo por cada um destes profissionais”. Quando se pensa na dança como conteúdo da educação física escolar, ela deve prestar-se aos propósitos e finalidades da educação física escolar, e não se caracterizar como um campo de conhecimento isolado, que objetiva formar o futuro (a) bailarino (a).

Quanto à dança arte (Dança Artística), esta é uma área de conhecimento autônoma, uma profissão reconhecida e regulamentada, estruturada com leis e diretrizes educacionais próprias. Logo, distinta da área da Educação Física.

DANÇA ARTE NÃO É ESPORTE E BAILARINO NÃO É ATLETA.

Evidentemente quem acha que bailarino é atleta e que Dança é esporte não conhece as especificidades das duas funções, não possui fundamento científico.


Há quem pense que o coreógrafo é como um treinador, uma vez que os dois profissionais traçam os planos das suas equipes; que os bailarinos têm seus corpos cuidados por fisioterapeutas, tal como sucede em qualquer time; e que o esporte, às vezes, é quase arte, e a dança é quase sempre atlética. Esse assunto pede conhecimento técnico. Se aos olhos do leigo o bailarino e o atleta podem parecer quase a mesma coisa, cabe aos profissionais dos dois lados (o da dança e o do esporte) esclarecerem que corpo de bailarino e corpo de atleta têm competências muito distintas - exatamente para salvaguardar as especificidades dos dois campos de atuação.
A Dança e o esporte são "fenômenos culturais que acompanham a evolução do homem", e "já existiam antes do aparecimento da educação física e independem dela para existir". Tanto um quanto o outro têm como finalidade o alto desempenho de seus praticantes (PELLEGRINI / SOUZA NETO). Mas, enquanto no esporte se prioriza, geralmente, a disputa e a competição, a dança caracteriza-se mais enquanto "arte como expressão cultural" e como a "arte de interpretar um dado ritmo musical através da expressão corporal".
Essa característica diferencia a Dança de outros movimentos como a ginástica, a mímica e os esportes. Em suas palavras: "Quando se entende a dança como um pensamento do corpo, este é o primeiro ganho: consegue-se diferenciá-la de todas as outras construções que um corpo faz com o movimento" (KATZ).
A dança é uma atividade artística, em que são veiculados elementos como a criatividade e a expressividade, ela permite o conhecimento das possibilidades e capacidades tanto físicas como expressivas do corpo. Outras atividades corporais que não a dança, não compreendem o aspecto estético, expressivo, artístico que a dança possui, mas apenas os seus aspectos físicos e motores.
A DANÇA pode servir de ferramenta para os coreógrafos, para os profissionais de educação física, para os terapeutas, para os psicólogos entre outros. Entretanto, o que estamos percebendo é que:

Exercícios físicos e atividades adicionalmente utilizadas pelos Profissionais de Educação Física estão sendo travestidas de dança, a exemplo da dança aeróbica, aero dança, fitness dança, power dança (que nada mais são do que ginástica aeróbica); temos ainda a hidro dança (que nada mais é do que hidroginástica). Portanto, nesse contexto de modismos desenfreados, impõe-se identificar a INTENCIONALIDADE, o fim que se quer alcançar com a atividade de Dança.

Os profissionais de Educação Física que desejam atuar no âmbito escolar com Dança-Educação devem ter uma melhor estrutura pedagógica e prática dentro da Faculdade. A Faculdade tem o dever de estar embasada e preparada para formação desses profissionais.

Profissionais que desejam atuar na Dança ARTE devem ter embasamento pedagógico e bagagem prática de muitos anos como bailarino, como artista do palco, a parte técnica só é adquirida com muita persistência e dedicação.

A Dança ARTE ou Dança COREOGRÁFICA, é atividade do ARTISTA e não do profissional de Educação Física.

Posso afirmar que nada me acrescentou a Faculdade quanto à parte Técnica da Dança.

É fundamental que a Faculdade de Educação Física capacite seus profissionais de Dança e Educação Física para atuar no âmbito escolar com dança-educação. A Dança nesse setor deve ser ensinada com liberdade e prazer, sem o aprisionamento em códigos formais, mas através da prática de um ensino diferenciado: um aprendizado com fundamentação técnica mais criativa dos conteúdos de uma aula de dança.
“A dança na escola engloba a sensibilização e conscientização dos alunos tanto para suas posturas, atitudes, gestos e ações cotidianas como para as necessidades de expressar, comunicar, criar, compartilhar e interatuar na sociedade."

Quanto a Dança-Arte, esta é uma atividade do artista e não do profissional de Educação Física.
Reforçando:
A Dança arte (Dança Artística) é uma área de conhecimento autônoma, uma profissão reconhecida e regulamentada, estruturada com leis e diretrizes educacionais próprias. Logo, distinta da área da Educação Física.
As duas áreas aqui discutidas são distintas e lutam pelo estabelecimento de suas próprias fronteiras e pela valorização de seu campo de formação e atuação no país.
A Dança-Escolar deve estar presente de alguma forma dentro da Educação Física, porém, deve ser adequada aos propósitos da Educação Física escolar.
A Dança Arte deve ser ministrada pelo artista que muitos anos calçou sapatilhas e no intuito de imortalizar sua técnica, aprimorou seus conhecimentos pedagogicamente para compartilhá-lo com seus simpatizantes.


Considerações:
Resolução 046/2002 instituiu a obrigatoriedade do registro no conselho de educação física daqueles profissionais que trabalham com as diferentes áreas ligadas ao corpo, incluindo a dança.
Esta resolução gerou vários protestos entre os profissionais da dança. Um deles tornou-se o Projeto de Lei 7370/02, do deputado Luiz Antonio Fleury, que exclui da fiscalização, dos conselhos federal e regional de Educação Física. Estes profissionais estão buscando a aprovação deste projeto, visando, portanto, o impedimento da regulamentação da dança pelo CREF e pelo CONFEF.

Informações sobre a autora da matéria:
Atualmente ministra aulas de Dança nas duas áreas:
1- Dança-Escolar com crianças de 03 à 06 anos (90 alunos): Divina Providência – Creche Monte Serrat – Florianópolis – S.C
2- Dança Arte para crianças e adolescentes de 03 à 16 anos com um corpo de cento e dez (110) Bailarinos: Studio de Ginástica e Dança Santa Catarina.
Professora Rosângela Déa de Melo
www.santacatarinadanca.com.br
(48) 3225-0237 / 8807-8870


Referências Bibliográficas utilizadas para complementação da matéria:
GASPARI, Telma C. Educação Física Escolar e Dança: uma proposta de intervenção. 2005. 168 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Motricidade) - Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro.
GONÇALVES, M. Augusta S. Sentir, pensar, agir- corporeidade e educação. Campinas: Papirus, 1994.
KATZ, Helena. Um, dois, três. A Dança é o pensamento do corpo. 1994. 191f. Tese (Doutorado) - Comunicação e Semiótica. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.
PELLEGRINI, A. Maria. A Formação Profissional em Educação Física. In: PASSOS, Solange C. E. (org.). Educação Física e Esportes na Universidade. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Física e Desportos, 1988.
SOUZA NETO, Samuel de. Educação Física, Esporte e Recreação: perspectivas históricas e tentativa de definição. Pesquisa realizada junto ao Departamento de Educação do Instituto de Biociências da UNESP, Rio Claro, 1992.
Estudo da dança formulado por Rudolf Laban e
Chames Maria S. Gariba

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